10th Polar and Alpine Microbiology Conference na Dinamarca

17/01/2026 19:17

Entre os dias 12 e 16 de janeiro de 2026, a doutoranda Alanna Maylle Cararo Luiz representou o Laboratório de Ecologia Microbiana de Ambientes Extremos (LEMEx) na 10th Polar and Alpine Microbiology Conference (10th PAM), realizada em Copenhague, Dinamarca.

O evento é um dos principais encontros científicos do mundo voltados à microbiologia de regiões polares e alpinas. A conferência reuniu pesquisadores para debater ecologia microbiana, biogeoquímica, virologia ambiental e as respostas dos microrganismos de ambientes extremos às mudanças climáticas globais.

Durante o evento, foram estabelecidos contatos importantes para o fortalecimento das linhas de pesquisa do LEMEx:

  • Tatyana Vishnivetskaya (University of Tennessee, EUA): Discussões sobre a diversidade e adaptação de microrganismos em solos congelados (permafrost e solos antárticos), abrindo caminho para futuras colaborações em ecologia microbiana de ambientes frios.
  • Ella Tali Sieradzki (Department of Agroecology, Plant Pathology and Microbiology): Troca de experiências e compartilhamento de protocolos metodológicos para amostragem e extração de DNA/RNA de vírus do solo, suporte direto para os novos projetos de virologia antártica do laboratório.
  • Parcerias Interdisciplinares: Conversas com pesquisadores como Tilly Woods (LMU Munique), focada em modelagem matemática aplicada à microbiologia, e Igor Pessi (Finnish Environment Institute), especialista em comunidades microbianas polares.

Além da programação científica, a participação na conferência possibilitou conhecer Copenhague, cidade reconhecida por seu patrimônio histórico e cultural, arquitetura característica e planejamento urbano voltado à sustentabilidade. A ampla infraestrutura para o uso de bicicletas, os espaços verdes, o transporte público eficiente e a integração entre áreas históricas e soluções urbanas modernas fazem da cidade um importante exemplo de desenvolvimento urbano sustentável, proporcionando um cenário especialmente significativo para um encontro dedicado aos ambientes polares e às mudanças climáticas.

A participação na 10th PAM reforça a inserção internacional do LEMEx e traz novas metodologias que vão agregar diretamente aos projetos e teses em andamento no nosso grupo.

33º Congresso Brasileiro de Microbiologia (CBM) – Aracaju, Sergipe

29/10/2025 14:12

O 33º Congresso Brasileiro de Microbiologia (CBM), um dos mais importantes eventos científicos nacionais da área, foi realizado de 25 a 28 de outubro de 2025, em Aracaju, Sergipe. Promovido a cada dois anos, o congresso reuniu a comunidade científica, estudantes de graduação e pós-graduação, representantes da sociedade civil e do governo, empresas do setor de microbiologia e o público em geral.

Com o tema central “A Microbiologia no Contexto das Mudanças Climáticas e da Inteligência Artificial”, o evento promoveu debates sobre dois dos principais desafios contemporâneos. Em razão de sua elevada biodiversidade, o Brasil ocupa uma posição estratégica na compreensão e mitigação das causas e dos impactos das mudanças climáticas. Além disso, foram discutidas as diversas aplicações da inteligência artificial na microbiologia, destacando seu potencial para impulsionar a pesquisa básica e aplicada, o ensino e o desenvolvimento de soluções inovadoras.

O 33º CBM representou um importante espaço para a troca de conhecimentos, o fortalecimento de colaborações científicas e o avanço da microbiologia no Brasil.

Nossa doutoranda Camila Kinasz expôs o resumo “METAGENOMIC RECONSTRUCTION OF MICROBIAL GENOMES FROM VOLCANIC TEPHRA ENTRAPPED IN COLLINS GLACIER, ANTARCTICA”. O estudo destacou a aplicação de abordagens metagenômicas para investigar a diversidade microbiana e reconstruir genomas microbianos a partir de tefra vulcânica aprisionada no gelo da Geleira Collins, na Antártica, contribuindo para uma melhor compreensão da adaptação e da evolução dos microrganismos em ambientes extremos.

Durante o congresso, foram apresentadas palestras muito interessantes, especialmente na área ambiental. Dentre elas, destacamos: ‘A vida na escuridão: buscando extremófilos em subsuperfícies terrestres e marinhas do Brasil como novos modelos para evolução e astrobiologia’, da professora Dra. Amanda Bendia, da USP. Além disso, parabenizamos o trabalho de Ana Carolina de Araújo Butarelli, da equipe da professora Vivian Helena Pellizari. ‘Unveiling the Role of Archaea in the Rare Biosphere: Potential Keystone Taxa in Ecosystem Dynamics in Lençóis Maranhenses National Park’ foi o vencedor da categoria ambiental.

 

Além do Congresso, aproveitamos para conhecer a capital do Sergipe, Aracaju. A capital sergipana fundada em 1855 com um planejamento urbano singular, destaca-se pela harmoniosa combinação entre modernidade e rica herança cultural. Banhada pelo Oceano Atlântico e pelos rios Sergipe, Poxim e Vaza Barris, a cidade oferece belezas naturais deslumbrantes, como a icônica Orla da Atalaia e seus diversos parques urbanos, além de pontos históricos como a Colina de Santo Antônio e os tradicionais mercados centrais, que juntos compõem um cenário vibrante e acolhedor de história, lazer e gastronomia.

 

Mariangela Hungria ganha o “Nobel” da agricultura mundial

14/05/2025 23:08

A cientista brasileira Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja e membro titular da e integrante da diretoria da Academia Brasileira de Ciências, foi laureada com o Prêmio Mundial de Alimentação (World Food Prize), reconhecido como o “Nobel” da agricultura. O anúncio ocorreu nesta terça-feira (13), na sede da Fundação World Food Prize, nos Estados Unidos. Concedido anualmente, o prêmio reconhece as personalidades que contribuem para aprimorar a qualidade e disponibilidade de alimentos no mundo.

Em anúncio sobre o prêmio, a fundação destacou que as descobertas de Mariângela ajudaram o Brasil a se tornar uma potência agrícola global. Com mais de 40 anos dedicados a pesquisas, Mariangela é reconhecida pelo desenvolvimento de tecnologias inovadoras em microbiologia do solo.

“Substituir o uso de produtos químicos por produtos biológicos na agricultura tem sido a luta da minha vida. Tenho muito orgulho de contribuir para a produção de alimentos e, ao mesmo tempo, diminuir o impacto ambiental. A meta era aumentar a produtividade com o menor uso possível de produtos químicos, e conseguimos isso com mais produtos biológicos”, afirmou Mariangela em comunicado sobre o prêmio.

Para ela, a láurea é um reconhecimento também à ciência feita no Brasil e um estímulo a outras pesquisadoras. “Não consigo acreditar que agora estou recebendo o Prêmio Mundial da Alimentação. Muitas pessoas questionaram minha capacidade ao longo de minha carreira, mas eu acreditei no que estava fazendo e perseverei. O papel das mulheres na agricultura, da agricultura à ciência, merece mais reconhecimento. Espero que minha conquista inspire outras pessoas a perseguirem suas paixões na ciência.”

Inspirada por Johanna Döbereiner, reconhecida internacionalmente por suas contribuições à agricultura, Mariangela foi uma das primeiras defensoras da fixação biológica de nitrogênio, processo no qual culturas formam uma associação mutuamente benéfica com as bactérias do solo que fornecem nitrogênio, nutriente essencial para o crescimento das plantas.

Ao longo da carreira, desenvolveu dezenas de tratamentos biológicos, reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos e aumentando a produtividade.  A estimativa é que suas tecnologias tenham sido usadas em mais de 40 milhões de hectares no Brasil, economizando aos agricultores até US$ 25 bilhões por ano em custos de insumos e evitando mais de 230 milhões de toneladas de emissões equivalentes de CO2 por ano.

Segundo a Embrapa, onde atua desde 1982, a ênfase das pesquisas de Mariangela tem sido no aumento da produção e na qualidade de alimentos por meio da substituição total ou parcial de fertilizantes químicos por microrganismos portadores de propriedades como fixação biológica de nitrogênio, síntese de fitormônios e solubilização de fosfatos e rochas potássicas.

Além das pesquisas com soja, Mariangela também já coordenou estudos que levaram a tecnologias para outras culturas, como feijão, milho e trigo. Em 2020, foi classificada entre os 100 mil cientistas mais influentes no mundo pela Universidade de Stanford (EUA).

Graduada engenharia agronômica pela Esalq/USP, Mariangela tem mestrado em solos e nutrição de plantas (Esalq/USP), doutorado em ciência do solo (UFRRJ) e pós-doutorado em três universidades: Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla. Iniciou a carreira em 1982 na Embrapa Agrobiologia, em Seropédica (RJ). Desde 1991, atua na Embrapa Soja, em Londrina (PR). É ainda professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Cientista é a primeira mulher brasileira a receber o prêmio, que já laureou outros três representantes do país

Essa é a terceira vez que o Prêmio Mundial de Alimentação é concedido a brasileiros, e a primeira para uma mulher do país. Em 2006, os agrônomos Edson Lobato e Alysson Paulinelli dividiram o prêmio com A. Colin McClung, dos Estados Unidos, pelo trabalho no desenvolvimento da agricultura na região do cerrado. Em 2011, dois ex-presidentes, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e John Kufuor, de Gana, foram escolhidos por sua atuação no combate à fome como chefes de governo.

O prêmio foi idealizado por Norman E. Borlaug, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1970 por seu trabalho na agricultura e considerado “pai” da revolução verde. A láurea foi criada em 1986, com patrocínio da General Foods Corporation. Com o reconhecimento, Mariangela receberá US$ 500 mil e uma escultura projetada pelo artista e designer Saul Bass. A solenidade de entrega do prêmio será em 23 de outubro, em Des Moines (EUA).

Presente no anúncio, a governadora do estado de Iowa, Kim Reynolds, reforçou o exemplo de Mariangela a outras mulheres. “Como cientista pioneira e mãe, a Dra. Hungria também serve como um exemplo inspirador para mulheres pesquisadoras que buscam encarnar ambos os papéis. Suas descobertas levaram o Brasil a se tornar um celeiro global”, afirmou.

“A Dra. Hungria foi escolhida pelas suas extraordinárias realizações científicas na fixação biológica que transformaram a sustentabilidade da agricultura na América do Sul”, afirmou o presidente do comitê de seleção dos indicados ao prêmio, Gebisa Ejeta. “Seu brilhante trabalho científico e visão comprometida no avanço da produção agrícola sustentável lhe renderam reconhecimento global, tanto no país como no exterior.”

fonte: https://www.abc.org.br/2025/05/14/mariangela-hungria-nobel-da-agricultura/

Exposição “Culturas e Microcosmos: do laboratório à sala de aula”

19/09/2024 00:45

A Biblioteca Central da UFSC recebe de 18 a 27/09/2024, no térreo (Galeria Expositiva Hall Principal) a exposição “Culturas e Microcosmos: do laboratório à sala de aula – uma exposição de Placas de Petri“. produzida pelo Laboratório de Ecologia Molecular de Extremófilos (LEMEx) da UFSC.

O Laboratório de Ecologia Molecular de Extremófilos (LEMEx), coordenado pelo Prof. Dr. Rubens Tadeu Delgado Duarte, localizado no CCB/UFSC, Bloco E, 7º andar, sala 711.

O laboratório realiza pesquisas nas áreas de ecologia microbiana, biotecnologia e astrobiologia, com ênfase no estudo de microrganismos que habitam ambientes extremos. A metodologia empregada no LEMEx abrange o uso de marcadores moleculares e análises bioinformáticas com dados ômicos, incluindo genômica, metagenômica e metatranscriptômica.

Além disso, o laboratório utiliza técnicas tanto tradicionais quanto modernas de cultivo microbiano para a caracterização desses microrganismos extremófilos. Muitos microrganismos podem ser cultivados em laboratório. Além da água, os meios de cultivo utilizados para esse propósito devem conter nutrientes essenciais para o crescimento dos microrganismos, como uma fonte de energia (tipicamente açúcares) e fontes utilizáveis para biossíntese e metabolismo (especialmente nitrogênio, enxofre e fósforo). Os meios sólidos permitem o crescimento e a isolação de colônias microbianas individuais em sua superfície. Cada colônia origina-se de uma única unidade formadora de colônia (UFC), geralmente uma única bactéria. Portanto, todas as células em uma colônia são assumidas como pertencentes à mesma cepa e espécie.

Esses meios de cultivo sólidos são preparados adicionando 1 a 2% de ágar, uma mistura de agarose e agaropectina de origem algal. Este meio é autoclavado, resfriado e, subsequentemente, vertido em placas de Petri, onde esfria e solidifica. A massa gelatinosa fornece água e nutrientes aos microrganismos que são inoculados na superfície do ágar.

Realização: BU/UFSC Exposições

Mais informações: lemex.ufsc.br

Tags: Exposições

Link original: Biblioteca Universitária

Pesquisa da UFSC investiga como as bactérias da Antártida podem ajudar e entender mudanças climáticas

01/12/2021 00:42

Alanna e professor Rubens estudam material coletado na Antártida

Os milhares de microorganismos que habitam o mundo, a maior parte deles desconhecidos da ciência, também podem trazer respostas sobre um dos fatores mais preocupantes da modernidade: as mudanças climáticas. Uma série de pesquisas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob coordenação do professor Rubens Tadeu Delgado Duarte, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, investiga como bactérias da Antártida podem trazer respostas sobre o tema e também seu potencial em inovações da biotecnologia.

Uma dessas pesquisas vem sendo desenvolvida pela estudante de iniciação científica Alanna Maylle Cararo Luiz em seu trabalho de conclusão de curso e foi recentemente apresentada no evento da Sociedade Brasileira de Microbiologia. O estudo Estratégias de crescimento de microrganismos de solos de recuo de geleira da Antártica em termos de seleção r-k trabalha com material coletado em uma expedição pelo continente em 2017, parte do projeto Microsfera – A Vida microbiana na Criosfera Antártica: mudanças climáticas, e bioprospecção.

As pesquisas ocorrem no Laboratório de Ecologia Molecular e Extremófilos (LEMEx). O professor explica que a ecologia molecular é uma uma área da da biologia em que se utiliza moléculas para estudar a ecologia dos seres vivos, e os extremófilos são justamente aqueles organismos que conseguem sobreviver em condições extremas – tal como ocorre no ainda desconhecido continente mais frio do planeta. No LEMEx, a proposta é utilizar moléculas das bactérias para entendê-las e desvendar propriedades e funcionalidades desconhecidas. “Tem milhares, dezenas de milhares de espécies de bactérias e um único grama de solo. Então, uma colher de chá de solo tem milhões de indivíduos a serem estudados”, explica.

O continente antártico também é foco dos interesses porque o eixo central das pesquisas está ligado à ideia de compreender as mudanças climáticas. Cientistas do mundo todo investigam esse ponto do planeta por conta do derretimento das geleiras, que ocasiona aumento no nível das águas e produz um verdadeiro efeito cascata na biodiversidade. “Nós queremos utilizar o conhecimento sobre essas bactérias para determinar, por exemplo, se elas podem indicar uma mudança climática mais rápida ou uma mudança climática mais lenta, ou seja, a gente pode utilizá-las como uma forma de monitoramento de mudanças climáticas, como termômetros biológicos”.

Duarte explica que diferentes seres vivos podem indicar essas variações. Os pinguins, por exemplo, são muito utilizados pela ciência porque se aproveitam do derretimento dos solos para colonizarem o ambiente. Assim, o aumento das “pinguineiras” é uma amostra efetiva do aquecimento. O que ocorre é que este é um processo lento, que depende das características reprodutivas dos animais. As bactérias, ao contrário, podem trazer essas respostas de forma mais ágil e também mais efetiva.

Collins e Baranowski

As pesquisas da UFSC são realizadas a partir da coleta de solo e de gelo de duas geleiras na Antártida: a Collins e a Baranowski. Segundo o professor, isso ocorre porque, enquanto uma apresenta um processo de derretimento lento, a outra degela de forma muito rápida. “Os levantamentos indicam que a Baranowski recuou, em 43 anos, o que a Collins levou mais de mil anos para recuar”, comenta.

Com esse recuo, o solo volta a ficar exposto e as bactérias são despertadas. Esse processo fornece à ciência um gradiente espaço-temporal, já que se coletam amostragens logo em frente às geleiras, no solo que acabou de ficar exposto, e em regiões mais distantes, expostas há vinte, trinta ou quarenta anos. “Esse gradiente é importante porque é possível entender o que aconteceu com as populações de bactérias ao longo do tempo”, explica.

Ainda segundo o professor, é possível não só comparar o solo exposto mais e menos recentemente como comparar os solos de cada uma das geleiras – a de rápido e lento processo de degelo. “Quando comparamos a Collins com a Baranowski, por exemplo, podemos identificar quais microorganismos ocorrem no solo da geleira que derrete mais rápido. Essas bactérias podem servir como termômetro para nós”.

No caso da pesquisa de Alanna, a ideia é utilizar bactérias dessas amostras coletadas durante a expedição de 2017 para entender o papel do derretimento das geleiras na sucessão ecológica, o que contribui com o monitoramento dos efeitos das mudanças climáticas. Para ilustrar o que esse fenômeno representa, o professor utiliza um exemplo mais familiar para os brasileiros do que o derretimento das geleiras: as queimadas.

De acordo com Rubens, este processo impacta em toda a biodiversidade da região que está sendo investigada. “Vamos para uma floresta Mata Atlântica, aqui próximo a nós. Digamos que tenha uma queimada. Então, você tem a biodiversidade em volta, mas tem uma clareira sem planta nenhuma. Ao longo dos anos, a floresta vai ocupar aquele espaço novamente: novas sementes vão cair ali, animais vão começar a visitar. Ao longo do tempo, haverá um processo de sucessão ecológica”, explica. E existe um padrão para que isso ocorra: primeiro gramíneas, depois plantas arbustivas, pequenos arbustos, árvores de porte pequeno. Os animais também vão se guiando conforme esse padrão.

Na Antártida, o derretimento das geleiras também passa por esse processo, considerando, é claro, as particularidades da região. E é nesse ponto que a investigação da UFSC pode avançar: a geleira derreteu, o solo descongelou e ficou exposto ao oxigênio da atmosfera. Primeiro algumas bactérias começam a crescer, depois outras, sucessivamente. “As populações vão mudando”, reforça o professor. “Isso acontece com qualquer fator de impacto ambiental”. A sucessão ecológica vai refletir os processos de seleção natural de acordo com a disponibilidade de recursos e as estratégias de crescimento dos organismos.

Na pesquisa, o olhar do professor e da acadêmica está voltado para o crescimento dessas bactérias. Alguns desses microorganismos crescem rápido, levando em torno de 48 horas para a população ficar visível em meio à cultura. Já outros demoram muito mais tempo para crescer. Em solos mais jovens, ou seja, mais recentemente expostos ao fenômeno do degelo, é possível encontrar os organismos que crescem de forma mais acelerada. “Mas à medida que nos distanciamos da geleira, encontramos maior diversidade”, pontua. O fenômeno também é diferente na geleira Collins e na Baranowski.

Amostras de solo foram coletados a distâncias de 0, 50, 100, 200, 300 e 400 m à frente das duas geleiras da Antártica. A contagem de células viáveis ​​foi realizada em cada uma dessas amostras. As colônias foram contadas diariamente e classificadas de acordo com o seu tempo de crescimento – maior ou menor que 48 horas. A partir daí, o estudo envolveu compreender a estratégia de crescimento e a distância em que se encontravam da geleira.

O professor explica que, segundo modelos ecológicos, os organismos de crescimento rápido ocorrem logo no início da sucessão e são substituídos, com o passar do tempo, por organismos de crescimento mais lento. No caso dos solos da Antártica, se organismos de crescimento rápido forem encontrados longe da geleira, é um sinal de que um grande volume de gelo derreteu recentemente. A comparação desse fenômeno entre as duas geleiras, associada a dados climáticos da região, irá comprovar a hipótese do grupo de pesquisadores e poderá trazer uma nova ferramenta para estudos de mudanças climáticas em áreas polares.

Geralmente, estudos como estes requerem também o sequenciamento genético das bactérias selecionadas. Mas o custo alto do processo e os recursos cada vez mais escassos para o investimento em pesquisa podem impedir esse passo adiante.

Diversidade dos microrganismos sugere possíveis aplicações

Outra vertente que os materiais coletados na Antártida pela UFSC também pode originar é a investigação das possíveis aplicações biotecnológicas dos organismos presentes no solo e no gelo. Além da pesquisa de Alanna, pelo menos outros sete trabalhos do LEMEx utilizam as amostras do continente.

Segundo Rubens, um dos mecanismos de adaptação de microrganismos ao frio extremo é a produção de proteínas anticongelantes, ou seja, que interferem na formação do gelo e na sua recristalização. Isso confere resistência celular a baixas temperaturas e ao congelamento. “Uma aplicação possível é na saúde pública, nas vacinas de DNA”, explica. Espera-se que os resultados dos estudos demonstrem que as proteínas produzidas por bactérias da Antártida aumentem a estabilidade da vacina de adenovírus submetidas ao congelamento, o que poderia ser aplicável em produtos como os imunizantes do coronavírus.

Um dos estudos em execução nessa linha é o da doutoranda Joana Camila Lopes, que investiga a caracterização dessas proteínas buscando as aplicações biotecnológicas. A pesquisa ainda está em fase inicial, mas as expectativas são positivas, podendo também gerar propostas de aplicações na agricultura, como na proteção contra as geadas, por exemplo.

Todas essas pesquisas são realizadas com amostras coletadas em expedições científicas do Programa Antártico, cuja participação mais recente por parte do LEMEx ocorreu em 2017. As amostras de gelo e de solo ficam armazenadas no laboratório e servem a diferentes pesquisas, de diferentes níveis – da graduação ao doutorado. O material, preservado, também pode servir para estudos futuros.

Fotos e Texto: Amanda Miranda/Jornalista da Agecom/UFSC

Tags: AntártidaBactériasbiotecnologiaEcologia Molecularexpedição antártidaextremófilosLaboratório de Ecologia Molecular e Extremófilosmudanças climáticaspesquisa antártida

 

Link original: Notícias da UFSC

UFSC na Mídia: Bactérias da Antártica podem revelar evolução do aquecimento global

04/03/2017 12:58
 

Carolina e Giulia. (Foto: Renato Gamba Romano)

Carolina e Giulia. (Foto: Renato Gamba Romano)

RIO — Pesquisadores brasileiros coletaram 150 quilos de solo e gelo da Antártica, que podem trazer novas revelações sobre a vida de micro-organismos no continente gelado. O material também será usado para estudar o impacto das mudanças climáticas no ecossistema.

A coleta foi iniciada em janeiro e durou 24 dias. Agora, as amostras começarão a ser analisadas em laboratórios das instituições participantes do Projeto Microsfera. De acordo com os cientistas, a análise das bactérias é uma importante ferramenta para o estudo do aquecimento global. Estes micro-organismos respondem rapidamente a mudanças no clima e no meio ambiente, adaptando seu metabolismo para adequar-se a fatores como o frio e a escuridão no inverno. As transformações que se prolongam por muitos anos levam ao desaparecimento de algumas espécies.

— Os micro-organismos que vivem na Antártica estão sujeitos a diferentes pressões ambientais. Precisam, por exemplo, sobreviver em locais com poucos nutrientes, além do frio intenso, com períodos de congelamento e descongelamento — descreve Carolina Alves Fernandes, estudante de agronomia e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma das universidades vinculadas ao Projeto Microsfera. — A radiação solar também é um problema, já que ela afeta o DNA das células e isso interfere na capacidade de reprodução das bactérias. Mas talvez seu maior problema seja a escassez de água líquida, que é necessária para todos os seres vivos.

Coordenadora do projeto e professora do Instituto Oceanográfico da USP, Vivian Pellizari destaca que os cientistas ainda não conhecem o “elo mais antigo” — o ancestral que seria comum a todos os seres vivos. O contato com organismos primitivos, coletados nas amostras de gelo, é fundamental para aproximar os pesquisadores do início desta linha do tempo.

— A vida dos micro-organismos está ligada a processos químicos e à História do planeta — ressalta. — A atual diversidade das espécies tem um ancestral comum. Ao estudarmos regiões como a Antártica, temos acesso a amostras que não foram expostas a células recentes.

Uma pesquisa coordenada por Vivian concluiu que existe uma tendência de redução da diversidade de bactérias no solo antártico. Como a região mais afetada será aquela que estava coberta de gelo nos últimos 30 anos, resta saber se a diminuição do número de espécies se deve a mudanças climáticas ou se esta é uma tendência natural deste ecossistema.

— São duas frentes de trabalho: a descoberta da evolução destes micro-organismos e os impactos provocados pelas mudanças climáticas — explica Vivian. — Também podemos ver como as bactérias se adaptam a novas condições, inclusive a sua resistência à radiação ultravioleta.

Texto: Renato Grandelle
Foto: Divulgação/Carolina Fernandes
Fonte: O Globo

Tags: O GloboUFSCUFSC na mídia

Link original: Notícias da UFSC

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